Você acredita que a bacia do rio Doce “ficará melhor do que era”?

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119 dias depois de muito falatório, advogado geral da União diz que acordo entre mineradoras e União – que prevê 15 anos de investimentos para recuperar a região afetada pelo rompimento das barragens em Mariana -, vai deixar o lugar “melhor do que era”
Rio Doce. (Imagem: ABr)
Rio Doce. (Imagem: ABr)

Por Marcos Scotti – “Esse acordo é um símbolo porque envolve diversos setores do Estado e mostra que esse Brasil consegue dialogar, conversar e construir soluções. É um Brasil que consegue se superar e produzir soluções de exemplo para mundo”, disse o advogado geral da União, Luis Inácio Adams, a respeito do acordo fechado com a Samarco para a recuperação da bacia do rio Doce, a praticamente seis meses da tragédia que matou a vida de Mariana ao litoral do Espírito Santo.

É justo dizer que o brasileiro tem capacidade de unir ideias, reunir projetos, construir ações proativas e praticar desenvolvimento sustentável. O brasileiro sabe fazer isso e é bom no que faz. Salvo algumas exceções.

Há exatos 119 dias do rompimento das barragens de contenção de rejeitos praticamente nada foi feito. Discutiu-se muito sobre responsabilidades. Se esperou a lama percorrer mais de 500 quilômetros de rios e chegar ao mar com tímidas iniciativas e muita conversa: “Olha, a lama vai chegar no mar…!”. “A represa pode romper de novo!”. E rompeu. Trataram de buscar os culpados e ficaram num empurra-empurra, cada qual se eximindo de suas culpas.

Enquanto a lama ainda faz estragos no litoral do Espírito Santo e sul da Bahia, as famílias que viram suas vidas e histórias arrastadas pela lama ainda esperam solução que agora, ao que parece, vem. Mas não são só eles. Pescadores privados do seu ganha pão, agricultores e ribeirinhos que tinham o rio Doce integrado em suas vidas, ainda olham para o rio sem acreditar no que aconteceu.

E tudo poderia ter sido evitado.

O que deveria ter sido feito não foi. Várias foram os depoimentos e documentos que mostraram negligência na liberação do licenciamento ambiental, na execução da obra, na fiscalização e no acompanhamento das condições das barragens. Negligência das empresas e do poder público.

E daqui pra frente, será diferente?

Na previsão do acordo assinado em março, serão 15 anos para que a bacia do rio Doce volte a ser como era, aliás, “melhor”, como disse o advogado da União.

No papel, o termo assinado determina a reparação total das condições socioeconômicas e ambientais por meio do investimento de R$ 20 bilhões em 38 programas de recuperação e compensação, a serem executados por uma fundação privada, instituída pelas empresas mineradoras e fiscalizada pelo poder público por meio de um Comitê Interfederativo. Um conselho consultivo também garantirá a participação de especialistas, representantes da sociedade civil e das comunidades atingidas.

Sim, o brasileiro é capaz e inteligente. O que o brasileiro ainda precisa é de empresários conscientes e honestos, de um poder realmente público e de políticos que não sejam corrompidos pelo poder. Assim, talvez, barragens não se rompam com tanta facilidade.

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