Degelo na Antártida cria iceberg três vezes maior que a cidade de São Paulo

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A rachadura que se abriu na plataforma tem 80 quilômetros de extensão e quase 500 metros de largura. Apenas 20 quilômetros ainda prendem o iceberg à plataforma de gelo.
Evolução da fenda na plataforma de gelo. (Imagem: OC).
Evolução da fenda na plataforma de gelo. (Imagem: OC).

Um iceberg de 5.000 quilômetros quadrados, um dos maiores já registrados no globo terrestre, está para ganhar os mares na região da Península Antártica, a porção do continente gelado mais próxima da América do Sul. O iceberg é três vezes maior do que a cidade de São Paulo.

Cientistas britânicos que monitoram o local desde 2014 afirmam que tudo o que separa uma parte da plataforma Larsen C da plataforma de gelo na Antártida de sair flutuando pelo oceano é uma pontinha de gelo de 20 quilômetros de extensão. A rachadura que se abriu tem 80 quilômetros hoje – a distância entre São Paulo e Campinas – e quase 500 metros de largura. Apenas em dezembro do ano passado ela cresceu 18 quilômetros.

O que deixa os cientistas de cabelo em pé com a Larsen C é que este episódio parece ser a realização sombria de uma antiga profecia sobre a mudança climática: a de que, num mundo em aquecimento perigoso, as primeiras vítimas seriam as plataformas de gelo da Antártida, e elas se esfacelariam de norte para sul, a partir da ponta da Península.

Essa previsão foi feita pelo glaciologista americano John Mercer em 1978. E encontrou sua realização justamente nas plataformas de gelo Larsen. Em 1978 elas eram três. Hoje resta apenas uma.

Icebergs à deriva

A Larsen A, a menor das três, se rompeu em 1995. Na época pouca gente deu bola, já que não havia monitoramento frequente por satélites e a influência da humanidade no aquecimento da Terra apenas começava a mostrar sinais evidentes.

Em 2002 foi a vez da Larsen B, e a história foi outra: a desintegração da plataforma, que pareceu explodir em milhares de icebergs, foi acompanhada em tempo real pelos cientistas. O evento durou pouco mais de um mês, levando embora uma área de 3.275 quilômetros quadrados de gelo que hoje é mar aberto. O verão de 2002 foi um dos mais quentes da história na Península Antártica, que por sua vez é uma das regiões do planeta que mais aqueceram: cerca de 3oC desde 1950. Aquele foi um dos alertas mais poderosos já dados sobre a realidade – e o perigo – da mudança do clima.

O problema das plataformas de gelo é o efeito colateral de seu rompimento. Essas imensas línguas de gelo flutuantes funcionam como rolhas ou barragens, freando o escoamento das geleiras que nelas desembocam. Essas geleiras, caso escorram mais rápido para o oceano, podem, sim, elevar o oceano. A Península Antártica tem armazenado em seus glaciares o equivalente a meio metro de nível do mar. Confie em mim: você não vai querer todo esse gelo despejado na água.

Segundo Sonntag, a preocupação é que o rompimento do iceberg seja um sinal de enfraquecimento da plataforma, que deixe a Larsen C – a quarta maior plataforma de gelo do mundo, com 48 mil quilômetros quadrados, pouco maior que o Espírito Santo – suscetível a uma desintegração.

“Esses eventos de desintegração podem acontecer em poucos dias. É quase como bater com um martelo num painel de vidro”, compara o pesquisador da Nasa. “Se a plataforma for embora, todas as geleiras que a alimentam perderão seu freio e começarão a fluir muito mais rápido e a aumentar o nível do mar.” Foi exatamente o que aconteceu com a Larsen B. “Mas a Larsen B era muito menor e freava muito menos geleiras que a Larsen C.”

Um estudo publicado em 2015 pelos pesquisadores do Midas sugere que o rompimento do iceberg deixaria a plataforma numa configuração geométrica instável, favorecendo o colapso. Sonntag diz que não há como saber. “Mas certamente este evento não é um bom sinal.”

(Fonte: Observatório do Clima)

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