Lama da Samarco matou o rio Doce

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“Jogaram a tabela periódica inteira” dentro do rio. A água não pode ser usada para consumo humano ou animal e nem para irrigar, diz especialista
Peixes mortos se amontoam nas margens do rio Doce. (Foto: Associação dos Pescadores e Amigos do rio Doce).
Peixes mortos se amontoam nas margens do rio Doce. (Foto: Associação dos Pescadores e Amigos do rio Doce).

Até que ponto o Brasil está preparado para enfrentar um desastre ambiental?

O rompimento das barragens da Samarco em Mariana, MG, mostrou uma triste realidade: empresa e organismos ambientais ficaram olhando e lamentando enquanto o mar de lama avança.

“São mais de 600 hectares de áreas de proteção ambiental nas margens dos rios cuja cobertura vegetal foi totalmente perdida e a fauna foi totalmente dizimada”, disse Marilene Ramos, presidente do Ibama – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente.

A enxurrada de lama que soterrou o distrito de Bento Rodrigues, ceifando vidas e destruindo os ecossistemas ao longo do rio Doce, por mais de 400 quilômetros, segundo os ambientalistas, poderia ter sido evitada com um plano de contingência – o que não existia – e a construção de barragens e diques de contenção nas cidades afetadas.

Uma análise laboratorial encomendada após o desastre encontrou na água do rio partículas de metais pesados como chumbo, alumínio, ferro, bário, cobre, boro e mercúrio. Segundo Luciano Magalhães, diretor do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Baixo Guando, órgão responsável pela análise, “parece que jogaram a tabela periódica inteira” dentro do rio. Segundo ele, a água não tem mais utilidade nenhuma, sendo imprópria para irrigação e consumo animal e humano.

Além desses metais pesados, a própria força da lama prejudicou a biodiversidade do rio para sempre – ambientalistas não descartam a possibilidade de que espécies endêmicas inteiras tenham sido soterradas pela lama. A quantidade de lama é tamanha (cerca de 20 mil piscinas olímpicas) que o rio teve o seu curso natural bloqueado, fazendo com que perdesse força e formasse lagoas que também não devem ter vida longa, já que, além dos minérios de ferro, esgoto, pesticidas e agrotóxicos também estão sendo carregados pelas águas.

O que deveria ter sido feito pela Samarco e pelo próprio governo, vem sendo feito por pescadores da região. Uma força-tarefa para combater o problema arregaçou as mangas e colocou em prática a Operação Arca de Noé na bacia hidrográfica do Rio Doce, onde a lama ainda não chegou, para transferir os peixes para lagoas de água limpa utilizando caixas, caçambas e lonas plásticas.

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